O bordado das Caldas ou da Rainha, é um dos bordados mais sóbrios do país, pelas suas tonalidades. Teve a sua origem a partir de um passeio que segundo a lenda, a Rainha D. Leonor que ao estar no seu castelo da Vila de Óbidos fez ao ir para Alcobaça. Quando estava nas Caldas, parou porque ficou admirada de ver gente muito pobre a banhar-se numa pocinha de água efervescente, que estavam a lavar as suas maleitas. Quando ia a chegar à Tornada, ia a pensar no que tinha observado e voltou a trás, por isso mesmo essa localidade se chama "Tornada". A própria Rainha sofria de uma chaga e ela própria se banhou naquela água e começou a sentir-se melhor. A partir dai fico muito agradecida á aquele lugar, e para isso mandou construir o Hospital Termal no local onde brotava a água milagrosa, como não tinha dinheiro, resolveu vender os alamares de ouro do seu manto que lhe tinha oferecido o seu irmão.
As aias da Rainha ficaram muito sensibilizadas com o seu gesto e por isso resolveram às escondidas bordar no seu manto com fios dourados. E assim nasce o bordado das Caldas da Rainha, continuaram a abordar nos serões de agulha e as aias passaram a vender os bordados há porta do hospital.
Estes bordados deviam vender-se nas arcadas do Hospital Real, em dias festivos e de feira.
«D’um sabor leve e agradável as toalhas bordadas com linha das Caldas que parecem pratos de arroz doce enfeitados a canela, essa linha das Caldas, que há trinta anos ainda se vendia às meadas à entrada do Hospital, e que todas as donas de casa da colónia balnear levavam para suas terras, porque nenhuma resistia na cor, como aquela, às lavagens e barrelas».
Embora não se conheçam, como se disse, exemplares fora da região caldense, os motivos mais usuais, «aranhiços» e espinhais, parecem ter, no entanto, certas analogias com alguns bordados considerados populares no sul da Espanha, mas com diferenças acentuadas quanto aos pontos e tons, que são azul e melado escuro.
Embora não se conheçam, como se disse, exemplares fora da região caldense, os motivos mais usuais, «aranhiços» e espinhais, parecem ter, no entanto, certas analogias com alguns bordados considerados populares no sul da Espanha, mas com diferenças acentuadas quanto aos pontos e tons, que são azul e melado escuro.
Não será razoavelmente verosímil castelhana? Não residirá a originalidade do bordado caldense nos frequentes contactos com uma colónia das zonas raianas da Extremadura espanhola e da Andaluzia, que desde longa data frequentava as termas locais?
Aproveitemos a oportunidade para referenciar a importância que poderá ter, para o estudo das raízes dos Bordados das Caldas, a pintura de Josefa d’Ayala, Sevilhana em Óbidos.
Aproveitemos a oportunidade para referenciar a importância que poderá ter, para o estudo das raízes dos Bordados das Caldas, a pintura de Josefa d’Ayala, Sevilhana em Óbidos.
Seria por certo, bastante produtivo procurar na obra desta popular pintora seiscentista, nomeadamente nas composições das suas naturezas mortas, a revelação de muitos aspectos pouco conhecidos dos motivos decorativos regionais ao tempo.
Outra hipótese, porém, é-nos trazida por João Maia Pereira «Os bordados das Caldas da Rainha foram importados, de Veneza, no século XVII, para as igrejas da cidade».
Outra hipótese, porém, é-nos trazida por João Maia Pereira «Os bordados das Caldas da Rainha foram importados, de Veneza, no século XVII, para as igrejas da cidade».
Viriam, então de Veneza, o entreposto mediterrâneo que, com Lisboa, recebia um manancial inesgotável de artefactos bordados, que as mulheres ocidentais se apressavam a copiar?
Fiquemos, então, com estas três hipóteses influenciais, indiana, espanhola ou veneziana, que fazem salientar, ainda mais, a importância das termas da rainha D. Leonor, como ponto de convergência de culturas, determinante no moldar do carácter hospitaleiro das gentes locais.
Os Bordados das Caldas eram primitivamente executados com fio de linho, tinto num tom castanho dourado ou melado, sobre um tecido ralo branco, ou invés, de linha branca trabalhada em tecido acastanhado, com grande profusão de pontos.
Os Bordados das Caldas eram primitivamente executados com fio de linho, tinto num tom castanho dourado ou melado, sobre um tecido ralo branco, ou invés, de linha branca trabalhada em tecido acastanhado, com grande profusão de pontos.
Trata-se de um bordado filigranado, sóbrio de colorido, e de fácil execução, sendo os materiais utilizados necessariamente modestos, porque modestas eram as vidas das suas executantes.
O renascimento do Bordado das Caldas da Rainha deve-se, muito principalmente, a D. Maria Margarida Franco dos Santos, que foi professora de lavores na Escola industrial e Comercial Rafael Bordalo Pinheiro, nas décadas de vinte a quarenta deste século, o que viria a motivar um grupo de senhoras, de que se destaca a Dra. Irene Truninger de Albuquerque, de origem Suíça, surpreendida nas Caldas da rainha pela Segunda Guerra Mundial e aqui casou, sendo depois professora na Faculdade de letras da Universidade de Letras de Lisboa.
PROF. KIBER SITHERC

