Esoterismo, Lendas, Mitos, Parapsicologia, Auto-Ajuda. kiber-sitherc@sapo.pt

28
Jun 10

 

                Esta superstição existe desde os tempos do império romano, porque o sal era uma espécie de ouro para os romanos já que era com ele que se preservavam os alimentos. Logo, derramá-lo significava desperdiçar algo bastante valioso. Curiosamente, os soldados eram pagos com sal, daí a origem da palavra salário, em latim salarium.


            Má sorte, se isto lhe ocorre ao segurar o saleiro, a não ser que se apresse a pegar uma pitada e jogá-la acima do ombro esquerdo directamente na cara do diabo. Porquê este é o local onde o demónio aguarda paciente para que nossa natureza pecadora renuncie a alma para sempre.


            O sal jogado não tem outro fim que o de cegar temporariamente, para que o espírito tenha tempo de voltar a ficar afiançado pela boa sorte. Desde a Grécia antiga, o sal teve um grande poder simbólico: procede da Mãe Terra, do mar; as lágrimas e a saliva são salgadas, e conserva, condimenta e enriquece os alimentos. Por isso, o filósofo grego Platão (427-347 a.C.) afirmava que o sal era “uma graça especial dos deuses”.

 

            O homem pré-histórico obtinha a sua dose de sal graças à carne crua de suas caças. Foi a passagem para a agricultura e para uma alimentação à base de grãos que introduziram a necessidade de complemento. O sal teve grande impacto também na história das civilizações: graças ao seu poder de conservar os alimentos facilitou a sobrevivência e a mobilidade das populações. Antes da Idade Média, pescadores holandeses já sabiam salgar o arenque para armazená-lo, tornando o peixe acessível longe do mar e durante o ano inteiro. O bacalhau salgado também é anterior à Idade Média. 

                                                                          

            No artigo “Na Bahia Colonial”, Taunay descreve o entusiasmo do viajante Pyrard de Laval na Bahia, em 1610. “É impossível terem-se carnes mais gordas, mais tenras e de melhor sabor. (...) Salgam as carnes, cortam-na em pedaços bastante largos, mas pouco espessos (...). Quando estão bem salgadas, tiram-nas sem lavar, pondo-as a secar ao sol; quando bem secas, podem conservar-se por muito tempo.”

 

            Os indígenas brasileiros não conheciam o sal. Era das carnes da caça que vinha a porção de que necessitavam. Os seus temperos eram as pimentas vermelhas (piripiri), e o seu método de conservação era o moqueio – defumação lenta sobre braseiro de folhas e gravetos. O sal foi introduzido no Brasil pelos portugueses e seu emprego como conservante influiu decisivamente na ocupação do território brasileiro. O charque, ou carne-seca, foi a base da alimentação dos boiadeiros do Nordeste, que avançaram pelo interior em direcção ao sul, em busca de terras para a pecuária, e dos bandeirantes paulistas, que tomaram o rumo noroeste, em busca de novas riquezas.

 

            O sal está presente em rituais religiosos de diversas épocas e civilizações. Foi usado por gregos, romanos, asiáticos e árabes. Mas talvez nenhuma tradição lhe tenha dado tanto destaque quanto a judaico-cristã. O Antigo Testamento menciona o sal com frequência, ora no contexto da vida prática, ora simbolicamente. Sal significa, por exemplo, pureza e fidelidade. No Novo testamento, a menção ao sal torna-se mais metafórica. Jesus diz a seus apóstolos - “Vós sois o sal da terra”.  

 

            Até o início da industrialização e em diferentes civilizações, o sal na mesa significou prestígio, orgulho, segurança e amizade. A expressão romana para exprimir ser infiel a uma amizade era “trair a promessa e o sal”. Desde aqueles tempos a ausência de um saleiro sobre a mesa representava um presságio, tanto quanto o sal derramado. Ao pintar a sua famosa “Santa Ceia” Leonardo da Vinci tratou de colocar diante de Judas um saleiro derramado.

 

            Abolido por Lutero no ritual de baptismo da religião protestante ainda no século 16, o uso do sal perdurou no baptizado católico até 1973, simbolizando a expulsão do demónio e o sinal de sabedoria sobre o recém-nascido. Ainda hoje, as batatas e ovos cozidos servidos no Pessach, a Páscoa judaica, são regados com água salgada, que simboliza as lágrimas derramadas pelos judeus na travessia do deserto, durante a fuga do Egipto.

 

            Nas crenças populares, ele é um ingrediente obrigatório para afastar demónios e feiticeiras. No Brasil, senão uma prática, o banho de sal grosso é uma expressão comum para designar protecção contra o mau-olhado. Recipientes com sal e uma cabeça de alho podem ser vistos com frequência não apenas em casas, mas também em lojas e escritórios. A final, que las hay, las hay...  

 

            Acredita-se que foi a Igreja que tomou emprestado esse uso para os seus rituais, sobretudo os de exorcismo, e não o contrário. A explicação de um demonólogo francês do século 16 para os poderes anti-diabólicos do sal: “ele é a marca da eternidade e da pureza, porque jamais apodrece ou se corrompe. E tudo o que o diabo procura é a corrupção e a dissolução das criaturas, tanto quanto Deus busca a criação. Daí a obrigação, pela lei de Deus, de colocar sal na mesa do santuário...”

 

            Povos antigos atribuíram ao sal poderes afrodisíacos e acreditavam que a sua carência reduzia a potência sexual dos homens. Uma gravura satírica francesa do século 16 mostra mulheres de diversas classes sociais numa actividade insólita: debruçadas sobre os maridos sem calças, que esperneiam, aprisionados em barris, elas esfregam com sal, vigorosamente, suas partes íntimas.  

 

            Existe um grande número de superstições em torno do sal. Eis algumas:  

 

            - O saleiro passado de mão em mão a outra pessoa da mesa traz má sorte. No Brasil, recomenda-se que ele não seja levantado da superfície da mesa. Nos Estados Unidos, existe o ditado “passe-me sal, passe-me sofrimento”.

 

            - Espalhar sal afugenta os vampiros.

 

            - Usar um sachê de sal pendurado no pescoço afasta os maus espíritos.

 

            - Derrubar sal traz má sorte, a menos que se jogue uma pitada por cima do ombro direito.

 

            - Para afastar os maus espíritos, joga-se sal por cima do ombro esquerdo.

 

            - Cada grão de sal derrubado equivale a uma lágrima. Para evitá-las, leva-se imediatamente o sal derrubado para uma panela no fogo. Isso bastará para secar as lágrimas.

 

            - Emprestar ou pedir emprestado sal ou pimenta destrói a amizade. É melhor oferecê-los e aceitá-los como um presente.

 

            - No Médio Oriente acredita-se que quando duas pessoas comem sal juntas, formam um vínculo. Por isso, usa-se sal para selar um contrato.

 

            - No Havai, a pessoa que volta de um funeral polvilha sal sobre si mesma, para garantir que os maus espíritos que rondassem o defunto não a acompanhem em casa.

 

            - No Japão, espalha-se sal no palco antes da apresentação para evitar que maus espíritos joguem pragas sobre os actores.

 

            - Em muitos países espalha-se sal no umbral da porta de uma casa nova para impedir a entrada de maus espíritos.

 

            - Deixar um copo de vidro cheio de sal grosso no canto da sala, traz sorte.

 

PROF. KIBER SITHERC

 

"Santa Ceia" de Leonardo da Vinci

kiber-sitherc@sapo.pt
publicado por professorkibersitherc às 21:41


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