Esoterismo, Lendas, Mitos, Parapsicologia, Auto-Ajuda. kiber-sitherc@sapo.pt

15
Dez 10

 

            Ouguela é hoje uma pequena aldeia alentejana de apenas 60 habitantes que pertence à freguesia de São João Baptista, na qual se insere a vila de Campo Maior. Mas apesar de tudo, é uma aldeia com muita História.

 

            Ergue-se, sobranceira, sobre um pequeno outeiro que fica no ponto em que a Ribeira do Abrilongo, um riacho fronteiriço, desagua no rio Xévora, também outro rio fronteiriço afluente do Guadiana, rio ao qual se une uns quilómetros mais abaixo, já em Espanha, onde recebe o nome de Gévora. É uma avançada da fronteira, da que dista apenas uns 3-4 km. no meio dos campos e as planícies do Alentejo.

 

            Parece que já existia algum tipo de povoamento antes da época romana, mas será com os árabes, que fizeram dela uma fortaleza e, sobretudo após a Reconquista Cristã, que vai ter um importante papel, nomeadamente na defesa da fronteira. Ao contrário da maior parte das localidades reconquistadas, Ouguela, como Campo Maior, faz parte da Reconquista leonesa, e não portuguesa. Depois da ocupação de Cáceres em 1229, os exércitos leoneses de Afonso IX de Leão derrotaram os muçulmanos na batalha de Alange em 1230, na localidade do mesmo nome que fica a uns 18 km. de Mérida. Isso possibilitou a conquista do vale do Guadiana, nomeadamente as cidades de Mérida e Badajoz, mas também Campo Maior e Ouguela, de forma que a fronteira ficou mais ou menos estabilizada entre Alegrete e Arronches e no rio Caia no caso do limite com a cidade de Elvas, reconquistada por o nosso rei D. Sancho II em 1226. Enquanto localidade leonesa, pertenceu ao cabido da diocese de Badajoz.

 

            No entanto, a união definitiva de Leão com Castela após a morte do rei leonês com o rei castelhano Fernando III o Santo, vai supor uma travagem à Reconquista da Extremadura espanhola, que só vai finalizar em 1248 quando o último reduto, a aldeia de Montemolín, caiu. A fronteira não ficou estabilizada, apesar dos intentos sucessivos. Portugal esteve na posse do território de Aracena e Aroche até 1253, numa tentativa de dominar os territórios da vizinhança de Sevilha. O Tratado de Badajoz de 1267 fixou as fronteiras no rio Guadiana, com o que Castela ficava com a posse dos castelos de Serpa, Moura e Noudar. A mudança nas circunstâncias, aproveitando as guerras civis em Castela, serviu para que D. Dinis, em 1297, assinasse com Castela o famoso Tratado de Alcañices.

 

            Este tratado terá importantes consequências no território que estamos a estudar: o novo limite implicava a devolução dos castelos de Serpa, Moura e Noudar. D. Dinis vai tentar ficar com a cidade de Badajoz, o que não vai conseguir, mas conseguiu os territórios que ficavam a volta dela: as Terras de Olivença e Táliga e Campo Maior e Ouguela, que rodeavam quase completamente à cidade. Já no ano seguinte Ouguela terá uma Carta de Foral, com importantes privilégios, mas também se determinou a reedificação das muralhas e da fortaleza. Construiu-se a cerca nas décadas seguintes e em 1420 o rei D. João concedeu o privilégio de couto de homiziados com o objecto de favorecer o seu repovoamento.

 

            Alguns acontecimentos históricos aconteceram aqui que cumpre salientar. Em 1475, no marco da guerra civil que havia em Castela entre os partidários da rainha Isabel e os partidários de Joana, a Beltraneja, filha de Joana de Portugal, esposa de Henrique IV de Castela e filha do rei D. Duarte. Um dos incidentes fronteiriços levou ao alcaide-mor de Ouguela, João da Silva, e o alcaide-mor de Albuquerque, vizinha vila espanhola, a uma confrontação entre eles, morrendo ambos os dois.

 

            Em 1512 D. Manuel I deu-lhe Foral Novo e assim seguiu até a Guerra da Restauração. Ouguela ficava na primeira linha de ataque pelo que se determinou no Conselho de Guerra a modernização das muralhas, dando-lhe um carácter abaluartado, segundo projecto de Nicolau de Langres. Mas o episódio talvez mais espantoso da sua História foi a tentativa de ocupação espanhola em 1644 com a ajuda de um traidor, João Rodrigues de Oliveira, que tinha desempenhado cargos importantes no Brasil e que se passou aos espanhóis. No entanto, a perícia dos soldados portugueses, que viram o movimento das tropas espanholas, evitou a queda da praça em mãos espanholas. A resistência foi dura, mas os soldados conseguiram avisar o governador da praça e improvisar uma defesa apressada na qual, como não podia ser de outra forma, participaram com heroicidade mulheres, entre as quais o destaque vai para Isabel Pereira. Trás um forte ataque espanhol, os portugueses conseguiram resistir e os espanhóis tiveram de se retirar não sem algumas baixas e muitos feridos.

 

            Depois deste episódio, Ouguela continuou a viver a sua existência como praça fronteiriça, resistindo a novas invasões espanholas, nomeadamente as de 1762 e 1801.

 

            No entanto, após a Guerra Peninsular, Ouguela perdeu a sua importância. Os projectos de recuperação da fortaleza nunca vieram se concretizar e Ouguela perdeu na reforma administrativa de 1836 o seu estatuto de concelho, passando a integrar-se no de Campo Maior e sendo desmilitarizada em 1840. O seu declínio continuou até hoje, que o demonstra o facto de ter sido anexada à freguesia de S. João Baptista em 1941 como mero lugar. Na actualidade é uma aldeiazinha alentejana na que a maior parte da população vive extra muros.

            Ouguela é muito rica em lendas, vejamos a seguinte:

 

                Diz a tradição que estava uma mulher da vila a lavar a roupa no rio, acompanhada por uma filha pequena. A dado passo, a criança afastou-se para brincar, e, pouco tempo depois regressou trazendo um brinco em ouro que disse ter sido ofertado, para brincar, por uma senhora muito bonita.


            A mãe acompanhou a criança ao local onde esta disse estar a Senhora, e lá se deparou com a imagem de Nossa Senhora sobre uma pedra redonda que ainda hoje se encontra na capela. Espalhada a notícia do achado, a população acorreu em massa e devotadamente transporta para a vila a Imagem, decidindo erigir uma capela na margem direita do rio, a meio caminho entre a citada pedra e a vila.

 

             Porém, todas as manhãs a imagem desaparecia e voltava a surgir sobre a pedra em que originalmente havia sido vista. Concluíram então ser esse o local escolhido para nele erguerem a Capela.

 

PROF. KIBER SITHERC

 

 

kiber-sitherc@sapo.pt
publicado por professorkibersitherc às 01:04


contador

contador
pesquisar
 
mais sobre mim
blogs SAPO