Esoterismo, Lendas, Mitos, Parapsicologia, Auto-Ajuda. kiber-sitherc@sapo.pt

28
Jan 10

 

            Havia um homem da ilha das Flores que tinha um filho de nome João. O rapaz era muito imaginativo e passava a vida a sonhar. Um certo dia o João ia pelo caminho fora, carregado com bilhas de água.
            Tinha-a ido buscar longe para ser usada em casa. Ia sozinho e a sonhar, um pé na terra e o outro na lua, como era habitual nele. Encontrou, a certa altura, uma poça de água no caminho e disse em voz alta, para si mesmo:
             - Dizem que noutros lugares há lagoas e caldeiras muito lindas. Aqui na minha ilha não há. Vou mas é fazê-las!
              Pegou numa das bilhas de barro que trazia cheias de água e despejou-a no chão. Com a facilidade com que tinha sonhado em fazer as lagoas, logo se formou a primeira caldeira.

            O rapaz deu pulos de alegria e pensou: "Sempre que encontrar poças de água, vou fazer o mesmo!"
            Ali à esquerda estava outra poça mais funda e o rapaz, com confiança, vazou outra bilha de água. Formou-se outra vez uma lagoa, muito, muito funda.
            Teve que ir de novo encher as bilhas. Levado pelo sonho, foi andando, andando, pela ilha, tendo encontrado ao todo sete poças de água, onde foi deitando água.

            Assim se foram formando, a Caldeira Funda das Lajes, onde poderia flutuar um grande paquete. Há outras mais baixas, como a Caldeira Rasa, cujas margens são muito lodosas e perigosas. As restantes lagoas que o rapaz foi formando ao encontrar as poças de água são a Caldeira Branca, a Seca, a Comprida, a Funda e a Lomba. Tornaram-se todas muito diferentes, mas muito bonitas, de águas limpas e transparentes, como foi desejo do rapaz que as sonhou e as fez.
 
PROF. KIBER SITHERC
 
 
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            Há muito tempo, havia uma grande hospedaria na pequena vila de Hachinohe (actual município de Aomori), localizada no norte do Japão. Naquela hospedaria, havia vários quartos e um, na parte dos fundos, especialmente bonito, junto ao jardim interno.
            Certa ocasião, um hóspede deitado, quase pegando no sono, viu a porta se abrir deslizando e um menino entrando no quarto. Aproximando-se do hóspede, a criança disse:
            – Tio, vamos medir forças jogando braço-de-ferro?
            O hóspede imaginou que o menino fosse filho do dono da hospedaria e havia vindo ao quarto para lhe dar as boas-vindas. Assim, brincaram algumas vezes jogando braço-de-ferro. O incrível de tudo isso era que a criança tinha se mostrado muito forte, vencendo todas as partidas.
            Na manhã seguinte, o homem comentou com o dono da hospedaria:
            – o seu filho é muito forte, ontem à noite jogamos braço-de-ferro e eu não consegui ganhar, por mais força que fizesse.

            O hospedeiro olhou-o surpreso e disse:
            – Mas, senhor, eu não tenho filho! De onde será que apareceu essa criança?!
            Depois daquele dia, outros visitantes que também dormiram naquele quarto contaram que, à noite, uma criança aparecia pedindo para jogar braço-de-ferro. Interessante que nem o hospedeiro nem os empregados daquela casa havia visto essa criança. Somente as pessoas que se hospedavam e dormiam naquele quarto podiam vê-la. Esse facto se espalhou pela redondeza, e todos passaram a comentar que naquela hospedaria morava um Zashiki Warashi.
 
            (Zashiki em japonês significa quarto e Warashi, no dialecto da região de Aomori, significa “criança”, portanto Zashiki Warashi quer dizer “criança do quarto”. Muitas pessoas acreditam na existência dessas estranhas crianças que tanto podem ser do sexo masculino ou feminino, mas ninguém sabe definir se são fantasmas ou duendes. Existem muitos casos registados no Japão e diversas situações em que as aparições desses seres se fizeram presentes. Nos dias actuais, existem várias casos ou lendas urbanas que falam da aparição desses seres nas grandes cidades).
 
            A fama da hospedaria foi crescendo, e muitas pessoas que se julgavam fortes queriam pernoitar naquele quarto para jogar braço-de-ferro com o Zashiki Warashi. Outros que se julgavam corajosos queriam se hospedar simplesmente ver a criança. Assim, a hospedaria ficou muito disputada e os negócios foram de vento em popa, entrando muito dinheiro no cofre do hospedeiro, que se tornou um homem muito rico.
            Com tanto dinheiro acumulado, o hospedeiro parou de trabalhar e deixou tudo por conta dos empregados. Assim, passou a levar uma vida folgada, com muitas festas e bebidas. Certo dia, quatro ou cinco anos depois, o dono da hospedaria estava sentado na varanda de seu estabelecimento e viu um menino andando no corredor.
            – Quem é ele? – quis saber o hospedeiro.
            E a criança saiu correndo para fora da hospedaria.
            – Um menino que veio do quarto lá do fundo e foi embora – disse a mulher da limpeza.
            Depois desse dia, a criança nunca mais apareceu para ninguém. Por isso, os hóspedes daquela casa foram diminuindo dia após dia e finalmente, alguns anos mais tarde, a hospedaria faliu.
 
PROF. KIBER SITHERC
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            Era uma vez uma mulher de Guadalupe, na Graciosa, que ia casar uma filha em poucos dias. Estavam a fazer as cozeduras e, com todos os preparativos, a mulher já tinha gasto muito do pouco que tinha. É que para casar uma filha, são gastos e mais gastos!
            Numa certa altura, a mulher já estava farta de puxar pela carteira e, aborrecida, virou-se para a filha e disse:
            - Vai-te com o diabo, rapariga, que me levas tudo o que tenho!

            Ninguém prestou atenção a estas palavras, mas passado pouco tempo , quando foram pela rapariga, não a encontraram em casa nem na vizinhança. Toda a gente ficou muito aflita, principalmente os pais e o noivo. Começaram então a procurar em lugares mais distantes, até que, sem saber mais onde procurar, foram para a serra e chegaram junto de um precipício a que chamam de Caldeirinha. Desceram o mais depressa que puderam a vereda perigosa que conduz até à entrada de forma arredondada que conduz não se sabe onde? Ainda mais surpresas e aflitos ficaram, quando viram ali as galochas da rapariga e acreditaram que ela estava dentro da Caldeirinha.

            Foram buscar cordas muito fortes, ataram-nas umas às outras e o noivo amarrou-se. Cheio de medo por não saber o que ia encontrar lá dentro, foi descido pelo buraco escuro e medonho. No fundo encontrou a infeliz rapariga, tremendo de medo e aparvalhada. Amarrou-a também com as cordas e lá subiram os dois.
O pior estava passado!   Mas quando questionaram a rapariga como tinha ido ali parar, ela não sabia ao certo.
            Então a mãe lembrou-se da blasfémia que tinha dito, tendo-a entregue ao diabo. Ele, que anda sempre à procura de almas, levara-a logo para o lugar onde se costumava esconder, a Caldeirinha.
 
PROF. KIBER SITHERC
 
 
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                 Esta lenda é originária da ilha de São Miguel, Açores.
            Há muitos anos, na freguesia de Água de Pau, (concelho de Lagoa), vivia na Rua da Boavista, um casal com uma filha única, já crescidinha. O homem da casa era um honrado camponês de poucas posses. Para arranjo da vida costumava ter uma porca de criação, um regalo de animal, mansa e boa amamentadeira dos marrõezinhos, que paria duas vezes por ano. Era um animal muito estimado por ser muito pachorrenta e também porque, com a venda dos leitões, a família fazia dinheiro para pagar a dívida da mercearia e outras pequenas contas em atraso.

            Logo de manhã, a primeira coisa que o dono fazia era ir ao pé do pátio da porca ver como estava, coçá-la, dar-lhe umas palmadas no lombo em sinal de carinho. Por vezes levava-lhe uma tigela de milho em grão.

            Aconteceu, certo dia, que ao aproximar-se da pocilga, não viu a porca lá dentro. Correu a avisar a mulher e começaram a lamentar-se. O murmúrio foi grande e logo apareceram alguns vizinhos, que se decidiram a  ir procurar o animal desaparecido. Correram ruas e canadas dos arredores. Bateram palmo a palmo a freguesia, mas nada encontraram. Foram depois para mais longe e a filha da casa, vendo os pais aflitos, também se pôs a procurar. Tanto que ela gostava dos marrõezinhos que a porca levou consigo!

            Lembrou-se de subir o Pico e qual não foi o seu espanto, quando ao olhar para o caldeirão que ficava na cratera, viu lá em baixo a porca deitada e rodeada pelos marrõezinhos. Radiante de felicidade e não sabendo como tinha a porca ido ali parar, a rapariguinha gritou:

            - A porca furou o Pico! A porca furou o Pico!
            Trouxeram o animal para o pátio e tudo voltou à normalidade. Mas a frase pronunciada ingenuamente pela menina nunca mais foi esquecida e, ainda hoje, as pessoas que ali passam de carro ou camioneta, principalmente excursionistas, perguntam ironicamente:
            - Foi aqui que a porca furou o Pico?
            Os habitantes da vila, sentindo-se apelidados de ingénuos ou parvalhões, reagem, soltando pragas e fazendo gestos de revolta e fúria.
 
PROF. KIBER SITHERC
 
 
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            No Palácio Nacional de Sintra existe uma sala cujo tecto está pintado com diversos desenhos de pegas. 


            Diz-se que o rei e a rainha que lá viviam nessa época fizeram casar mais de um cento de mulheres, entrando na conta as que ele próprio casou também, seguindo tão bons exemplos. Não havia uma ligação ilícita, nem um adultério conhecido. A corte era uma escola. D. Filipa, pregando ao peito o seu véu de esposa casta, com os olhos levantados ao céu, não perdoava. Terrível, na sua mansidão, trazia o marido sobre espinhos.

            Certo dia, segundo reza a lenda, em Sintra, o rei distraiu-se, e furtivamente pregava um beijo na face de uma das aias, quando apareceu logo, acusadora e grave, sem uma palavra, mas com um ar medonho, a rainha casta e loura.
 D. João, atrapalhado, vacilando, tentou desculpar-se:
            - Foi por bem!
            A rainha saiu e afastou-se majestosamente. Não mostrou ciúmes. Apenas sentia o seu orgulho ferido.

            Rapidamente a notícia se espalhou pelo palácio, e toda a criadagem andava com a frase "Foi por bem" na boca. Chateado com a situação, o rei decidiu tomar uma iniciativa, mandou construir uma sala para a criadagem. Todos ficaram radiantes e contando os dias que faltavam para a sala estar pronta.

            Finalmente chegou o dia, iam conhecer a sala. Qual não foi o espanto de todos ao verem que o tecto de tal sala estava todo pintado com pegas, que tinham escrito no bico "Pour Bien". (traduza-se por bem).
 
PROF. KIBER SITHERC
 
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27
Jan 10

 

            Em Mimasaka no Kuni (país de Mimasaka), hoje província de Okayama, havia uma pequena aldeia de nome Kagami, onde até hoje existe um solo sagrado com um templo centenário shintô dedicado à divindade Musubi no Kami, deus do amor e da união.
            Nesse solo sagrado ao redor do templo havia uma velha e magnífica cerejeira chamada Kanzakura, ou cerejeira sagrada. Próximo dela foi construído o templo dedicado ao deus do amor.
 
            Na pequena vila de Kagami morava um homem muito rico chamado Sodayu. Ele era viúvo e tinha uma encantadora filha, de 17 anos, chamada Hanano. Um dia, Sodayu achou que a filha estava na idade de contrair matrimónio.
            - Minha menina - disse o pai - devemos proceder como manda a tradição. O tempo passou e já estás na idade de encontrar um marido. Minha obrigação é arranjar um bom noivo para ti.
            Hanano contou a novidade à governanta Yuka, pedindo que ela encontrasse alguém para gostar. Yuka respondeu que era difícil encontrar uma pessoa que a merecesse, porém sugeriu que a sua jovem patroa fosse rezar no templo de Musubi no Kami.
            - Para isso, terá que orar 21 dias seguidos no terreno sagrado.
            Hanano gostou da sugestão e, nesse mesmo dia, partiu em companhia de Yuka em direcção do santuário. Dia após dia ela orou, até que chegou o 21º dia. Terminadas as orações, elas voltavam passando sob a grande cerejeira sagrada, que estava em plena floração. Viram que perto do tronco havia um jovem, com cerca de 21anos. Era um belo rapaz com olhos expressivos e tinha na mão um galho de cerejeira carregada de flores. Para surpresa das duas, ele deu um agradável sorriso para Hanano e veio ao encontro dela. Gentilmente, entregou as flores para Hanano, curvando em reverência, e afastou-se em seguida.
            Hanano vibrou de emoção. Ficou muito feliz, pois sentiu que o deus do amor e da união havia mandado aquele belo jovem em resposta às suas preces.
            - Yuka, eu estou muito feliz. Como você disse, o deus Musubi me enviou esse lindo rapaz. Valeu a pena ficar orando durante 21 dias.
 
            Na cidade vizinha, havia um samurai de nome Tokunosuke que, ao ficar sabendo que Sodayu procurava um noivo para a filha, resolveu ir pessoalmente se apresentar como pretendente. No dia seguinte, o moço foi visitar o pai de Hanano. A certa altura da conversa, Hanano foi chamada para servir chá ao visitante. Depois que ele foi embora, o pai disse que aquele é o rapaz que ele escolheu para ser seu esposo.
            - Ele é de uma família rica. O seu pai é meu amigo. E o rapaz diz que já faz um tempo que está apaixonado por ti.
            Hanano nada disse, pediu licença a seu pai e retirou-se para o seu quarto de cabeça baixa. Sodayu comentou com Yuka:
            - Encontrei um óptimo pretendente para minha filha, mas ela em vez de mostra-se feliz, saiu às pressas para o quarto. Você pode explicar-me a razão? Você deve saber os seus segredos.
            Yuka a princípio vacilou em responder, mas achou que para o bem da menina devia contar toda a verdade. Assim, relatou o encontro da Hanano com o jovem desconhecido.
 
            Na manhã seguinte, Tokunosuke veio a casa de Sodayu e ouviu de Hanano que não poderia casar-se com ele, pois amava um rapaz desconhecido.
            O jovem que amava Hanano ficou desesperado. E revolveu segui-la para saber quem era seu rival.
            Na tarde desse mesmo dia, Hanano e Yuka foram ao templo. Mais uma vez o jovem estava sob a cerejeira florida e, vendo a garota, se aproximou com um ramo florido e a ofereceu sem dizer uma palavra.
            Tokunosuke, que estava escondido atrás de um torô (lanterna de pedra), assistiu a tudo com o coração apertado.
            Quando Hanano e Yuka foram embora, Tokunosuke saiu de seu esconderijo e abordou o jovem em tom rude.
            - Quem é você, seu conquistador barato? Dê seu nome e endereço, quero saber se é digno ao amor da bela Hanano.
 
            O jovem nada respondeu, limitou-se a fitá-lo com seu olhar penetrante. Isso deixou Tokunosuke mais irritado. O samurai sacou de sua espada e atacou com um violento golpe em direcção do jovem. Agarrando um galho pendente numa esquiva rápida, o jovem misturou-se às fartas flores de cerejeiras. Nesse momento, uma chuva de pétalas caiu sobre o samurai, cegando-o momentaneamente.
            Quando a chuva de pétalas acalmou, Tokunosuke pôde perceber que o jovem havia desaparecido e sua espada estava clavada no tronco da cerejeira. Nisso, um dos sacerdotes do templo veio correndo e gritando:
            - Seu malfeitor desalmado! Feriste o tronco da cerejeira sagrada. Por que tanta violência?
            Tokunosuke pediu desculpas de joelho e contou ao religioso o que tinha acontecido. E o sacerdote explicou:
            - Esta árvore é sagrada porque tem um espírito sagrado. Às vezes, o espírito da árvore se manifesta sob forma de um jovem diante do tronco. É a esse espírito que você tentou ferir com a sua espada.
            Tokunosuke deixou o solo sagrado e foi directo para casa de Sodayu. E contou a ele tudo o que tinha visto e ouvido.
 
            - Talvez agora sua filha aceite casar-se comigo, pois não pode se casar com um espírito sagrado, não é mesmo?
            Hanano foi chamada para saber do acontecido. O resultado foi o mais inesperado possível.
            - Não sei o que dizer. Cometi uma blasfémia, fui me apaixonar por um deus da natureza - gritava completamente fora de si. - Tenho que orar bastante no templo para ser perdoada.
            Assim, Hanano, mais uma vez, recusou-se a casar com Tokunosuke e resolveu se internar em um templo e se dedicar à vida religiosa. Com o consentimento de seu pai, foi viver num templo, raspando a cabeça e vestindo um hábito branco. Hanano passou a viver sua nova vida varrendo o chão do jardim, cuidando das plantas e fazendo muitas orações. Dizem que quando ela morreu, foi enterrada no solo sagrado e, de seu túmulo, nasceu uma nova cerejeira. Hoje, essa cerejeira floresce todos os anos ao lado da cerejeira grande sagrada.
 
PROF. KIBER SITHERC
 
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publicado por professorkibersitherc às 23:07

 

            Há muitos e muitos anos, viveu numa aldeia japonesa um homem muito preguiçoso e pobre. Ele vivia se queixando de sua condição de pobreza, sem raciocinar que, se trabalhasse, poderia amenizar pelo menos um pouco a sua situação financeira.
Inconformado com a situação em que vivia, foi para a casa do homem mais rico da aldeia e perguntou:
            - Não entendo por que sou tão pobre e não estou conformado com isso. Por favor, diga-me como devo agir para resolver minha situação.
            - Quando a pessoa é pobre por muito tempo, é sinal de que em sua casa mora um Binbogami, o deus da Pobreza. O único modo de melhorar a situação é expulsando essa criatura de sua casa.
            - Mas, senhor, eu nunca vi nenhuma criatura estranha morando em minha casa.
            - Ele nem sempre é visível, principalmente quando a casa está suja demais. Dizem que, quanto mais suja a casa, mais ele gosta, e mais invisível se torna, porque seu espírito “encosta” em algum objecto, animal preguiçoso ou pessoa pessimista e fica o tempo todo morando na casa sem que ninguém desconfie.
            - E como devo agir para expulsar essa criatura de casa?
            - Primeiro, você tem que fazer uma limpeza na casa, já que ele gosta da sujeira. Depois, você continua limpando diariamente, para manter a casa sempre limpa. Binbogami vai sentir-se pouco à vontade com tanta limpeza.
            - Não existe um jeito mais fácil?

            - Se você quer vencer na vida, terá que trabalhar bastante e sem reclamar. Quando chegar o dia 15 de Novembro, cerque a sua casa com um shimanawa (corda sagrada da religião xintô que separa o terreno sagrado do profano). Quando a noite chegar, dance cantando: “Para fora, Binbogami! Para dentro, riqueza!” Vá dançando e cantando por todos os cómodos da casa, sem parar. O deus da Pobreza não vai suportar ouvir essa música repetidamente e sairá de seu esconderijo. Assim, assustado com a limpeza que encontrará em sua casa, certamente irá embora. Depois, a sua situação financeira irá de ruim para boa, e de boa para melhor.
 
            Entusiasmado, o homem voltou para casa, certo de que, a partir daquele conselho, a sua vida se transformaria de água para saquê (vinho de arroz). Porém, como era muito preguiçoso, deixou a limpeza para o dia seguinte.
            No dia seguinte, e nos outros que se seguiram, estava com muita preguiça e foi adiando a limpeza da casa. Na verdade, ele, em vez de começar a limpeza, ficou apenas preocupado em contar os dias que faltavam para 15 de Novembro. Quando a data esperada chegou, o preguiçoso estendeu um shimenawa em volta da casa e começou a cantar, dançando, como o ricaço havia lhe ensinado.
            – Para fora, Binbogami! Para dentro, riqueza!
             Apesar do jeito desajeitado de dançar e da voz pouco agradável de ouvir, sua performance era até interessante e, principalmente, muito engraçada. Enquanto dançava por toda a casa, tropeçou no cachorro preguiçoso que ele tinha.

            O cachorro, que vivia o dia inteiro dormindo e tinha preguiça até de latir, esticou o pescoço lentamente e ficou assistindo a seu dono dançar. De repente, ficou de pé e começou a dançar, contracenando com seu dono. O homem ficou assustado vendo o cachorro dançando de pé. Porém, a surpresa maior veio quando o cachorro foi transformando, diante de seus olhos, num ser estranho com um chifre na cabeça e que lembrava o oni (demónio). Na verdade, o cachorro voltou a andar de quatro patas e o ser demoníaco desprendeu-se dele e foi em direcção à porta.
            – O quê! Você deve ser o Binbogami, deus da Pobreza, e estava encostado no meu cachorro. Agora que deixou o cachorro, vai embora da minha casa, não é mesmo?
            – Eu vou dar uma saída e volto logo. Assistindo e participando de sua dança, gostei demais. Aliás, bom demais para guardar só para mim. Por isso, vou chamar outros Binbogami para participarem também. Continue cantando e dançando. Meus amigos vão adorar essa casa suja e pobre.
            Conta a lenda que, depois desse dia, a casa ficou tão cheia de Binbogamis, que nenhuma reza forte conseguiu exorcizar essas entidades malevolentes.
 
PROF. KIBER SITHERC
 
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publicado por professorkibersitherc às 22:15

 

            Antigamente, antes do confucionismo ter chegado ao Japão, a cortesia e a modéstia eram vistas como uma virtude. Esta lenda que envolve dois príncipes, aborda o exagero da cortesia adoptada por eles.
 
            Nintoku Tenno que reinou entre os anos 313 a 399 foi um dos maiores imperadores da época proto-histórica do Japão. Conta a tradição que antes dele subir ao trono, houve uma homérica competição de modéstia e cortesia entre ele, príncipe Ohosazaki, e seu meio irmão, o Príncipe Herdeiro que residia no castelo de Uji. Foram necessários três longos anos, para os príncipes decidirem quem não seria o imperador. Isso porque, apesar do trono estar vazio, cada qual se achava menos apto de tornar-se o grande mandatário do País que o outro.
 
            Naqueles dias, numa aldeia próxima de Naniwa, um pescador apanhou um peixe excepcionalmente grande e resolveu fazer uma cortesia ao imperador. Colocou esse peixe num cesto e alguns menores em outro, cada cesto na extremidade de um pau, para balancear o peso. Assim, com os cestos equilibrados no ombro e seguido por mais meia dúzia de pescadores, dirigiu-se orgulhoso ao palácio em Naniwa para fazer sua oferenda.
            Na portaria do palácio de Naniwa disseram ao pescador que levasse o peixe ao palácio de Uji, pois ali morava o imperador. Os pescadores percorreram em fila indiana, entre um palácio e outro e foram recebidos com grande cortesia no palácio de Uji.
            Quando souberam do que se tratava, o príncipe de Uji pessoalmente lhes disse:
            - Se querem presentear o imperador com esse magnífico peixe, por favor, levem para meu irmão no palácio de Naniwa. Ele é o Imperador.

            Os pescadores novamente puseram o pé na estrada e foram para Naniwa. Sabendo que seu irmão recomendara pessoalmente que os peixes fossem entregues a ele, o príncipe Ohosazaki, disse com toda modéstia e cortesia:
            - Eu, Imperador? Imagine uma coisa desta, sou indigno para tão grande honraria. Meu irmão sim, ele é o Imperador. Portanto, por favor, senhores pescadores, levem o peixe para ele com meus votos de grande estima e consideração.
            Como o príncipe de Naniwa acrescentou ao peixe seus votos de estima, os pescadores se viram obrigados a levar o presente e o recado ao príncipe de Uji. Assim percorreram mais uma vez, a estrada que cortava vilas e arrozais.

            Chegando no palácio de Uji, novamente foram mandados a Naniwa. E assim como bolinha de ténis, iam e vinham de palácio ao palácio. Enquanto isso os peixes foram apodrecendo e a comitiva de pescadores puxa-sacos, deixava rastro de mau cheiro por onde passavam.
            O Nihongi, o segundo livro mais antigo do Japão, conta que essa interminável competição às avessas, estava se eternizando e não chegaria a parte alguma. Então, o príncipe herdeiro disse antes de cometer suicídio: “Cheguei a conclusão que não é possível mudar a decisão de meu irmão. Enquanto eu estiver vivo ele achará que o trono é meu. Não devo mais causar problemas ao Império”.
            É o cúmulo da cortesia. O príncipe herdeiro se mata para dar lugar ao seu irmão.
Quando o príncipe Ohosazaki (futuro imperador Nintoku) recebeu a notícia que seu meio irmão Príncipe Herdeiro morreu, ficou chocado. Foi para o palácio de Uji a cavalo. Diante do defunto bateu em seu peito, gritou e gemeu, expressando grande desespero.
            Em seguida desatando o nó de seu cabelo e sentando-se sobre o cadáver, chamou pelo meio irmão três vezes, sacudindo-o pela gola.

            - Meu irmão príncipe! Meu irmão príncipe! Meu irmão príncipe!
            De repente o príncipe herdeiro voltou a vida e levantou-se. Então o príncipe Ohosazaki indagou:
            - Ah! Que desgraça! Quanta tristeza! Por que fostes embora por sua própria vontade? O que pensará de mim no outro mundo o espírito do Imperador, nosso pai?
            - Este é o meu destino. Ninguém poderia me deter. Se eu chegar a morada de meu pai, direi sem nada omitir, que meu irmão mais velho é um sábio e que muitas vezes tentou me ceder o trono - respondeu o Príncipe Herdeiro.
            - Fico sem palavras diante de tanta cortesia.
            - Cortesia fizestes Vossa Alteza, vindo de tão longe para me ver. Quero que aceite o símbolo de minha eterna gratidão.
            Dizendo isso, o príncipe herdeiro ofereceu a sua irmã mais nova, nascida da mesma mãe, a princesa Yata.
            - Creio que ela não é digna de se tornar sua imperatriz, mas honre-a tendo entre as damas da corte.
            Depois, o Príncipe Herdeiro voltou ao caixão e morreu de novo.
 
PROF. KIBER SITHERC
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publicado por professorkibersitherc às 16:39

 

            No dia 18 de Janeiro de 1657, houve um grande incêndio em Tóquio, que vitimou cerca de dez mil pessoas, ficou conhecido como “Furisode de Kaji”. Esta tragédia no Japão deu origem a uma interessante lenda.
 
            Em meados do século XVII, havia em Edo (actual Tóquio) uma linda jovema de nome Osame, que era filha de um rico comerciante chamado Hikoyemon. Esse comerciante era distribuidor de um saquê famoso da marca Hyakushô-machi, e seu depósito ficava no distrito de Azabu.
 
            Certa ocasião, Osame foi a um festival num templo e ficou apaixonada por um belo e elegante samurai. Infelizmente para ela, o jovem desapareceu na multidão antes que os empregados de seu pai pudessem descobrir de quem se tratava e de onde teria vindo.
 
            Foi amor à primeira vista. Os dias passaram-se, mas a imagem do jovem guerreiro ficou impregnada na memória da jovem. Desde o rosto jovial até as cores e detalhes de seu traje, tudo lhe pareceu extremamente maravilhoso. Então a jovem mandou confeccionar para ela um quimono de mangas longas com as mesmas cores do traje do rapaz. Ela tinha esperança de chamar a atenção dele quando o encontrasse, numa ocasião futura. Quando o quimono ficou pronto, ela o deixou armado sobre um cabide e ficava imaginando o seu príncipe encantando acariciando o traje. Às vezes, passava horas e horas pedindo a Buda que proporcionasse um encontro com seu sonhado amor e frequentemente repetia a invocação da seita do budismo Nichiren: Namu myo ho rengue-kyo. Mas, apesar de procurar por todos os cantos da cidade vestindo seu furisode (quimono de mangas longas), nunca mais viu o rapaz.
 
            Desgostosa e sentindo-se extremamente solitária, adoeceu, foi definhando e morreu tempos depois. Durante o velório, ela trajava o furisode, mas, depois de cremada, conforme costume da época, a veste de mangas longas foi doada ao templo budista Honmyoji, do distrito de Hongo. Era uma maneira de os fiéis ajudarem na manutenção do templo, pois o monge podia vender o traje a um bom preço, já que se tratava de uma roupa de seda pura.
 
            De facto, o furisode foi comprado na semana seguinte por uma jovem com mais ou menos a mesma idade de Osame. A nova proprietária do furisode usou-o apenas um dia, ficou doente e começou a agir estranhamente, gritando que estava tendo visões de um jovem bonito e que iria morrer por amor a ele. Dias depois, realmente veio a falecer.
O quimono de mangas longas pela segunda vez foi doado ao templo. E, uma vez mais, o monge vendeu-o a uma jovem, que o usou apenas uma vez. Ela disse estar com visões de um belo rapaz e morreu também. A vestimenta foi doada pela terceira vez ao templo. O monge começou a suspeitar de que havia algo de estranho naquele furisode.
 
            Então, uma jovem com mais ou menos da mesma idade das outras insistiu na compra do quimono. O monge acabou vendendo-o. A tragédia repetiu-se, e o furisode foi doado pela quarta vez ao templo.
            Então, o monge não teve mais dúvidas. Aquele furisode estava tomado por uma força maligna. Chamou os seus auxiliares e mandou fazer uma fogueira para queimar o quimono. Assim que fizeram a fogueira, a veste foi jogada nas chamas. O monge rezava com grande fervor para espantar a força do mal:
            – Namu myo ho rengue-kyo! Namu myo ho rengue-kyo!
            De repente, uma labareda subiu da fogueira e pegou fogo na madeira do telhado do templo. Nesse momento, um vendaval soprou sobre a cidade, e o fogo espalhou-se por várias casas, de rua em rua, de distrito em distrito, e quase toda cidade foi consumida pelas chamas. Existe outra versão desta mesma história que conta que, quando o monge lançou fogo no furisode, a veste em chamas saiu correndo pelas ruas e espalhou o fogo pela cidade.
 
PROF. KIBER SITHERC 

 

kiber-sitherc@sapo.pt
publicado por professorkibersitherc às 15:35

 

           Há muitos e muitos anos, havia em Ikue, província de Echizen, um jovem muito pobre chamado Yotsune, que nada tinha para comer. Diante de tamanha penúria, rezou com toda a força que lhe restava para a deusa Kichijoten, pedindo ajuda para se livrar daquela situação miserável. Pouco depois, uma linda mulher veio em sua direcção, estendeu tigela de arroz cozido e disse:
            – Come devagar, pois vejo que faz dias que não comes.
            Agradecido, Yotsune recebeu a tigela e um pouco que comeu se deu por satisfeito. Então, guardou a tigela para comer mais tarde. Porém, o pouco que comeu daquela tigela foi o suficiente para passar três dias sem ter fome. No quarto dia, comeu o restante, o que foi suficiente para passar o resto da semana sem fome.
 
            Na semana seguinte, a fome voltou e já não havia arroz na tigela para comer. Então, Yotsune novamente orou pedindo ajuda a deusa Kichijoten. Mais uma vez, a linda mulher surgiu em sua frente e disse lamentar muito, pois, desta vez, não poderia ajudá-lo directamente. Ele deveria ir buscar o arroz pessoalmente. Assim, entregou-lhe um papel que continha um certificado autorizando a retirada de arroz equivalente à produção de três alqueires.
            – Onde devo buscar esse arroz? – perguntou Yotsune.
            – Vai até ao Kitayama (Serra do Norte) e procura pelo pico mais alto. Escala o pico e grita, dizendo que vens buscar arroz. Alguém vai aparecer e te entregará o arroz.

            Com muito esforço, Yotsune conseguiu chegar ao ponto mais alto da serra e gritou várias vezes:
            – Tem alguém aí? Vim buscar o arroz!
            A resposta veio através de uma voz medonha e, em seguida, um vulto enorme veio em sua direcção. Yotsune, que já estava pálido de fome, ficou mais pálido ainda de tanto medo. O vulto era uma criatura demoníaca com um só olho no meio da face e um chifre na testa. Seu corpo enorme e musculoso estava coberto apenas por uma tanga vermelha. No ombro, trazia um saco de arroz.
            Yotsune, apesar de estar muito assustado, procurou mostrar calma e autoridade, numa demonstração de coragem, dizendo:
            – Vim buscar arroz. Aqui está o certificado.
            O demónico pôs o saco de arroz no chão, apanhou o papel e deu uma olhada:
            – Aqui diz arroz equivalente a três alqueires, porém só tenho um saco. Se estiver bem assim, pode levar este saco. Caso queira tudo de uma vez, deve reclamar à deusa Kichijoten.
            – Um saco de arroz já é mais do que tive em toda minha vida, não devo reclamar por ganância, e sim agradecer por tudo que a deusa tem feito por mim – dizendo isso, Yotsune agradeceu ao demónio e levou o saco para casa. Ora carregando e ora rolando a carga, voltou feliz da vida.
 
            Os dias foram passando e Yotsune aos poucos foi consumindo o arroz. Porém, um fato chamou sua atenção. À medida que ele tirava cada tigela de arroz, o mesmo tanto era reposto no saco, como magia. Assim, o rapaz descobriu que aquele saco nunca acabava, porque tornava a encher sozinho. Diante desse milagre, passou a vender arroz para a vizinhança e ganhou muito dinheiro. O saco de arroz encantado ganhou fama e pessoas de várias cidades passaram a vir comprar arroz de Yotsune, atraídas pela curiosidade. Assim, Yotsune acabou tornando um homem rico.
 
            A milagrosa história de Yotsune chegou ao ouvido do governador da província. Este quis a todo custo comprar o saco encantado e ofereceu em troca arroz equivalente a produção de cem alqueires em sacas de arroz. Sem poder recusar, pois o dono das terras de toda região era do governador, Yotsune foi obrigado a aceitar a oferta. Isso o tornou um milionário de uma vez.
            Levado para o castelo feudal, o saco continuou auto-enchendo como antes. O governador ficou muito feliz, pois, agora, haveria arroz garantido, mesmo que houvesse inundações ou seca em suas terras. Porém, passado algum tempo, quando foi retirado do saco arroz equivalente a produção de cem alqueires, o saco parou de repor o produto tirado e tornou-se vazio.
 
            O governador ficou furioso e pensou em mandar degolar o rico Yotsune, porém, nessa ocasião, estava em visita ao seu castelo o conhecido mago e andarilho, Onmyoji Shamon, e o governador consultou-o a esse respeito.
            – Mestre, o que acha? Devo mandar cortar a cabeça desse jovem que se atreveu a me enganar?
            – Jamais, meu caro governador. Quem quis o saco que era dele foi o senhor. Foi disparate de sua parte querer para si o prémio dado especialmente ao rapaz como mérito por sua devoção à deusa Kichijoten. Considere-se justiçado pelo fato de o saco ter devolvido o arroz que o senhor pagou para o rapaz.
            Dizem que o governador devolveu o saco a Yotsune e, uma vez na casa dele, o saco voltou a encher, tornando-se novamente inesgotável.
 
PROF. KIBER SITHERC
 
kiber-sitherc@sapo.pt
publicado por professorkibersitherc às 02:01

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