Esoterismo, Lendas, Mitos, Parapsicologia, Auto-Ajuda. kiber-sitherc@sapo.pt

23
Jan 10

 

            Havia duas mulheres amigas, uma que podia ter filhos, e tinha muitos, e a outra não. Um dia, a mulher estéril foi a casa da amiga e convidou-a a visitá-la, dizendo:
            - Amiga, tenho muitas coisas novas em casa, venha vê-las!
            - Está bem. - concordou a outra.
            De manhã cedo, a mulher que tinha muitos filhos foi visitar a amiga. Ao chegar a casa desta, chamou-a:
            - Amiga, minha amiga! - trazia consigo um pano que a mulher estéril aceitou e guardou.
            As duas amigas ficaram a conversar, tomando um chá que a dona da casa tinha preparado para as duas. Ao acabarem o chá, a dona da casa quis, então, mostrar à amiga as coisas que tinha comprado.
            Passaram para a sala e a mulher estéril abriu uma mala mostrando à amiga roupa, brincos, prata e outras coisas de valor. No final da visita, a mulher que tinha muitos filhos agradeceu, dizendo:
            - Um dia há-de ir a minha casa ver a mala que eu arranjei.
 
            E, um certo dia, a mulher que não tinha filhos, foi a casa da amiga. Mal a viram, os filhos desta gritaram:
            - A sua amiga está aqui! - agradeceram a peneira que ela trazia na cabeça e guardaram-na. Começaram, então, a preparar o chá. A mãe das crianças chamava-as uma a uma:
            - Fátima!
            - Mamã?
            - Põe o chá ao lume!
            - Mariamo!
            - Sim?
            - Vai partir lenha!
            - Anja!
            - Sim?
            - Vai ao poço
            - Muacisse!
            - Mamã?
            - Vai buscar açúcar!
            - Muhamede!
            - Sim?
            - Traz um copo!
            - Mariamo!
            - Vamos lá, despacha-te com o chá!
            Assim que o chá ficou pronto, tomaram-no e conversaram todos um pouco.          Quando a amiga se ia embora, a mulher que tinha filhos disse:
            - Minha amiga, eu chamei-a para ver a mala que arranjei, mas a minha mala não tem roupa nem brincos! A mala que lhe queria mostrar são os meus filhos!
            A mulher que não podia ter filhos ficou muito triste e, antes de chegar a casa, sentiu-se muito mal, com dores de cabeça e acabou por morrer.
            Comentário do narrador: coisa não é coisa, coisa é pessoa!
 
            A missão principal da mulher é a procriação e o respeito que lhe é devido aumenta com a idade e com o número de filhos. Assim, ter filhos é muito importante e quantos mais se tiver melhor, pois eles são a riqueza e o futuro da família. Nas sociedades matrilineares, donde provém este conto (Norte de Moçambique), se as mulheres não tiverem filhos a sua linhagem não continua. Quando o homem é estéril, é repudiado de imediato; a esterilidade feminina é atribuída à pouca sorte, podendo, quer num caso quer noutro, tentar-se o tratamento junto do curandeiro.
 
            Neste conto, após tudo ter tentado para poder engravidar e não o tendo conseguido, a mulher acabou por morrer de desgosto. A sua riqueza era feita só de bens materiais, enquanto que a riqueza da amiga eram os filhos. De realçar o costume de a visitante oferecer.
 
PROF. KIBER SITHERC
 
kiber-sitherc@sapo.pt
publicado por professorkibersitherc às 01:37

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